Las chicas del cable

Hoje falo sobre aquela que considero uma das melhores séries de sempre: Las chicas del cable.

Para quem não conhece (e tentando não dar muito spoiler), a série inicia em 1928, aborda vários temas delicados e que nem sempre lhes damos o devido valor (violência doméstica, aborto, transexualidade, racismo, abuso de poder, etc.).

As quatro personagens principais têm personalidades e histórias totalmente diferentes, e ao longo das quatro temporadas que devorei nos últimos dias, consegui identificar-me com partes de todas elas (bipolar? ahah).

Mas falando do ponto focal que me fez escrever sobre esta série: nesta altura, as mulheres não tinham voz, não tinham direito a pensar, a ter opinião. Eram sujeitas a situações repugnantes por abuso de poder por parte dos homens, eram humilhadas e vistas como seres irracionais que serviam apenas para criar os filhos e servir os maridos.

Realço que este post não é, de todo, um ataque aos homens, mas sim uma reflexão sobre o quanto nós, mulheres, devemos valorizar a nossa existência.

Estamos a falar de cerca de 90 anos atrás apenas. 90 anos foi ontem. E ter a possibilidade de ver o quanto as coisas mudaram fez-me questionar sobre muita coisa.

Hoje não precisamos mais esconder-nos atrás de um homem, não temos que temer o que pensa a sociedade. Somos livres, tivemos o privilégio de nascer livres porque alguém lutou imenso para que isso acontecesse.

E agora eu pergunto, teremos nós a real noção do que é ser livres? Teremos a consciência do que conquistaram para nós, e que nós poderemos conquistar, não apenas para nós, mas para os nossos descendentes futuros?

Infelizmente ainda vivemos rodeados de pessoas que se importam demasiado com a opinião dos mal amados, que não se permitem viver, correr riscos por medo de falhar.

Todos vamos falhar, todos vamos cometer erros. Cabe-nos aprender com eles, seguir em frente, e lutar pelo melhor, sempre!

Por isso, mulheres, quem não conhece a série, por favor, vejam, e tirem as vossas próprias conclusões. Façam uma retrospectiva da vossa vida, se estão a valorizar o que realmente importa ou se estão a permitir-se viver na sombra de alguém.

Maus tratos não é amor, agressividade não é amor, manipulação e controlo não é amor. Amor é apoio, é incentivo, é respeito, carinho. Não tenham medo de estar sós, não tenham medo de terminar uma relação que não vos faz feliz, não tenham medo das opiniões. Quem muito fala, muito tem que se lhe diga. Não vivam em função do que os outros acham correto, não permitam que escolham por vocês.

Falem, gritem, imponham-se. Ouçam e façam com que vos ouçam, sejam vocês mesmas, sem medos. Vivam. Sejam livres. (e vejam a série)

E tu? Como te sentes hoje? #2

Quando os dois primeiros parágrafos deste texto terminarem de ser lidos, uma pessoa terá morrido por suicídio. A cada 40 segundos, alguém no mundo interrompe a própria vida. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de óbitos auto-provocados é significativamente maior que aqueles causados por homicídio: 800 mil por ano, contra 470 mil. 

A notícia é de Junho de 2018 e é assustadora (deixo link do site no final do texto).

Existem assuntos que necessitam de um enorme cuidado quando são falados, e este é um deles.

São vários os motivos que podem levar alguém a colocar termo à sua vida: bullying, problemas familiares, desgostos amorosos, depressão, traumas emocionais, consumo de álcool e outras substâncias.

É muito fácil relativizar os problemas dos outros, é muito fácil apontar o dedo e dizer “só quer atenção“, “que dramático“. E se todos parássemos cinco minutos para reflectir quantas vezes contribuímos para um desfecho destes? Quantos comentários maldosos fazemos, muitas vezes inconscientemente?

Vivemos numa era completamente digital. Se não estiver na Internet, não aconteceu, se o número de likes não for minimamente aceitável, questiona-se qual será o problema da fotografia. E os comentários, quantas não são as pessoas que se escondem atrás de um ecrã para distribuir ódio gratuitamente?

Para quem não sabe, eu vou contar um segredo: é da natureza humana absorver mais facilmente as críticas do que os elogios. Se é correto? Não. Mas efectivamente, é o que acontece.

Então, todas as vezes que vocês deixam um comentário a alguém insultando a pessoa, quando falam mal do seu cabelo, da roupa, do corpo, o que seja, em algum momento pensaram no que ela iria sentir ao ler a vossa opinião?

Não justifiquem falta de empatia com liberdade de expressão. Se eu não gosto de uma foto, passo à seguinte. Ninguém obriga a colocar like, ninguém obriga a comentar.

A vossa amiga pintou o cabelo e vocês acham que não favorece. Se ela pedir opinião, digam-lhe que, se ela gosta, é o que importa. Não sejam rudes só porque “ah e tal, mas é minha amiga e eu tenho de ser sincero”.
Não.

Não estou a divagar, é nos pequenos pormenores que tudo começa. E que podemos fazer a diferença.

Existem vários termos científicos para caracterizar quem tem pensamentos suicidas. E a maioria não devia ser citado sequer. Porquê?

Conseguem imaginar o impacto que determinados rótulos podem ter em alguém que, por qualquer motivo, está insatisfeito com a sua vida? Como se sentem ao serem “diferenciados”?
Que atire a primeira pedra quem nunca se sentiu mal consigo mesmo!

Suicídio é um assunto sério. Depressão é um assunto sério. Não classifiquem as pessoas como doentes mentais, não lhes coloquem rótulos, não as menosprezem. Ouçam-nas, apoiem-nas, ajudem-nas.

Estamos a falar de vidas humanas, não de um personagem fictício de uma novela, ou de um jogo onde podemos recomeçar quando dá ruim.

É a nossa vida, é a vida de alguém. Não continuem a agir como se estivéssemos num filme, nem a fingir que não se importam com os outros. E mesmo que isso aconteça, guardem essa indiferença para vocês mesmos.

Para todos aqueles que estão numa fase menos boa da sua vida, seja o que for, existe sempre uma saída. Por maior que pareça o problema, por mais difícil que seja encontrar uma solução, às vezes basta termos um pouco de calma, respirar fundo e ver a situação de outra perspetiva. E quando isso não for suficiente, procurem ajuda, não tenham medo, não tenham vergonha. O colo de alguém pode ser o nosso melhor atalho para encontrar a paz que precisamos.

E tu, se alguém procurar o teu colo, não hesites em o dar. Não questiones o porquê, não desvalorizes, nem rejeites.
Apenas ouve, conforta, e mostra que existe um sítio seguro para onde possam voltar.

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2018/06/24/interna_ciencia_saude,690529/suicidio-e-responsavel-por-800-mil-mortes-anuais-e-avanca-pelos-paises.shtml