E tu? Como te sentes hoje? #2

Quando os dois primeiros parágrafos deste texto terminarem de ser lidos, uma pessoa terá morrido por suicídio. A cada 40 segundos, alguém no mundo interrompe a própria vida. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de óbitos auto-provocados é significativamente maior que aqueles causados por homicídio: 800 mil por ano, contra 470 mil. 

A notícia é de Junho de 2018 e é assustadora (deixo link do site no final do texto).

Existem assuntos que necessitam de um enorme cuidado quando são falados, e este é um deles.

São vários os motivos que podem levar alguém a colocar termo à sua vida: bullying, problemas familiares, desgostos amorosos, depressão, traumas emocionais, consumo de álcool e outras substâncias.

É muito fácil relativizar os problemas dos outros, é muito fácil apontar o dedo e dizer “só quer atenção“, “que dramático“. E se todos parássemos cinco minutos para reflectir quantas vezes contribuímos para um desfecho destes? Quantos comentários maldosos fazemos, muitas vezes inconscientemente?

Vivemos numa era completamente digital. Se não estiver na Internet, não aconteceu, se o número de likes não for minimamente aceitável, questiona-se qual será o problema da fotografia. E os comentários, quantas não são as pessoas que se escondem atrás de um ecrã para distribuir ódio gratuitamente?

Para quem não sabe, eu vou contar um segredo: é da natureza humana absorver mais facilmente as críticas do que os elogios. Se é correto? Não. Mas efectivamente, é o que acontece.

Então, todas as vezes que vocês deixam um comentário a alguém insultando a pessoa, quando falam mal do seu cabelo, da roupa, do corpo, o que seja, em algum momento pensaram no que ela iria sentir ao ler a vossa opinião?

Não justifiquem falta de empatia com liberdade de expressão. Se eu não gosto de uma foto, passo à seguinte. Ninguém obriga a colocar like, ninguém obriga a comentar.

A vossa amiga pintou o cabelo e vocês acham que não favorece. Se ela pedir opinião, digam-lhe que, se ela gosta, é o que importa. Não sejam rudes só porque “ah e tal, mas é minha amiga e eu tenho de ser sincero”.
Não.

Não estou a divagar, é nos pequenos pormenores que tudo começa. E que podemos fazer a diferença.

Existem vários termos científicos para caracterizar quem tem pensamentos suicidas. E a maioria não devia ser citado sequer. Porquê?

Conseguem imaginar o impacto que determinados rótulos podem ter em alguém que, por qualquer motivo, está insatisfeito com a sua vida? Como se sentem ao serem “diferenciados”?
Que atire a primeira pedra quem nunca se sentiu mal consigo mesmo!

Suicídio é um assunto sério. Depressão é um assunto sério. Não classifiquem as pessoas como doentes mentais, não lhes coloquem rótulos, não as menosprezem. Ouçam-nas, apoiem-nas, ajudem-nas.

Estamos a falar de vidas humanas, não de um personagem fictício de uma novela, ou de um jogo onde podemos recomeçar quando dá ruim.

É a nossa vida, é a vida de alguém. Não continuem a agir como se estivéssemos num filme, nem a fingir que não se importam com os outros. E mesmo que isso aconteça, guardem essa indiferença para vocês mesmos.

Para todos aqueles que estão numa fase menos boa da sua vida, seja o que for, existe sempre uma saída. Por maior que pareça o problema, por mais difícil que seja encontrar uma solução, às vezes basta termos um pouco de calma, respirar fundo e ver a situação de outra perspetiva. E quando isso não for suficiente, procurem ajuda, não tenham medo, não tenham vergonha. O colo de alguém pode ser o nosso melhor atalho para encontrar a paz que precisamos.

E tu, se alguém procurar o teu colo, não hesites em o dar. Não questiones o porquê, não desvalorizes, nem rejeites.
Apenas ouve, conforta, e mostra que existe um sítio seguro para onde possam voltar.

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2018/06/24/interna_ciencia_saude,690529/suicidio-e-responsavel-por-800-mil-mortes-anuais-e-avanca-pelos-paises.shtml

E tu? Como te sentes hoje? #1

Chegou o verão, altura de sol, praia, mar. Combinamos com a família ou os amigos em passar um dia agradável à beira mar, até que chega o grande problema: vestir o biquíni.

Se fosse à cinco anos atrás, nunca postaria uma fotografia em biquíni, na verdade, nem o vestiria. Talvez por isso sempre tenha dito que não gostava de praia.

Que atire a primeira pedra quem nunca se sentiu mal com o seu corpo. Porque se nunca tiverem tido qualquer tipo de complexos com ele, então tenho uma inveja saudável vossa.

Não faz muito tempo conheci uma menina que estava a passar por uma fase idêntica à minha. Quando olhava para ela só pensava “caramba, será que ela não consegue perceber que é tão linda assim?“. Isso é o que sempre temos tendência a fazer, desvalorizar a dor do outro, esquecendo muitas vezes que outrora fomos nós a sentir o mesmo.

Se olho no espelho e gosto de tudo o que vejo? Não. Se estou super à vontade com o meu corpo? Claro que não.

Não emagreci, não perdi a celulite (pelo contrário), não fiquei morena, nem cresci um único centímetro. Perdi peito, ganhei uns centímetros na barriga e as coxas continuam a ocupar demasiado espaço nas calças. Mas aqui estou eu, de biquíni, na praia, sem pensar nas minhas pernas brancas, na gordura a mais ou seja no que for.

É o segundo ano em que vou à praia com a minha família, em que uso calções sem meia calça, em que olho no espelho e sei que não é o que eu queria ver, mas é o que sou, o que tenho, e enquanto não alcanço o meu objetivo (não sei fazer dietas e sou péssima atleta no ginásio), aceito-me, tal como sou. E encolhendo a barriga para a fotografia claro (ahah).

Foi isso que mudou na minha vida nos últimos anos, aprendi a amar-me, a aceitar-me. Então, para todos aqueles que no ano anterior me enviaram mensagens com comentários desagradáveis por publicar uma foto em biquíni, e todos aqueles que neste momento o estão a pensar em fazer, não, não estou à procura de provocar ninguém, não me estou a vulgarizar, não estou a ser “uma qualquer”. O que para vocês é mais uma fotografia, mais uma miúda a pavonear-se nas redes sociais, para mim é uma conquista, é um avanço na aceitação do meu corpo.

Espero que um dia, a Beatriz consiga olhar no espelho e gostar de si mesma, que se veja do jeito que eu a vejo. Porque acreditem, ela é incrível!

Hoje sinto-me incrivelmente bem. E tu? Como te sentes hoje?