não percam tempo.

Sinto-me assustada.

Nunca pensei que algum dia iria viver este enorme sufoco pelo qual o Mundo está a passar. Nunca pensei que chegaríamos a tal ponto. Mas infelizmente aqui estamos nós, a lutar pela sobrevivência, a lutar para enfrentar uma luta futura ainda maior. Mas a natureza não erra, tudo tem um propósito para acontecer, eu acredito nisso.

No meio de todo este cenário de terror, conseguimos perceber como as simples coisas da vida nos podem fazer tanta falta. Vejo famílias que não sabem o que fazer com os filhos em casa porque não estão habituadas a ter tempo para eles. Presencio as maiores atrocidades do ser humano, a falta de respeito, bom senso, empatia para com o próximo. Isso não me surpreende, porque a nossa sociedade é egocêntrica, tóxica. Cada vez mais tenho certezas disso. Mas, bem, hoje não pretendo alimentar ainda mais este medo que todos sentimos 24 horas por dia.

Com algum tempo livre, que confesso já não saber o que era faz muito tempo, andei a ver os meus albuns de fotografias, e no meio de todas as mil e uma fotos que têm imensas recordações e histórias para contar, encontrei uma fotografia de escola com os meus primeiros amigos. Dois meses depois de entrar para a primária, mudei de casa, de escola, e alguns deles nunca mais os vi. A maioria consegui ir mantendo algum contacto, e outros encontrar anos mais tarde.

Porque estou eu a falar disto agora?

Bem, porque nunca pensei que, 18 anos depois daquela fotografia, dois deles teriam morrido de forma tão imprevisível e injusta. Mas, aconteceu. E isto reflete a nossa vida. Nunca sabemos o que nos espera, nunca sabemos com o que podemos contar, até acontecer.

Agora questiono-me, qual é o valor da vida humana? Valorizamos a vida que temos? Quando nos queixamos de tudo e mais alguma coisa, quando abdicamos de tempo com aqueles que amamos por sempre haver algo mais importante para fazer, será realmente a atitude correta?

Não, não é.

Quantos amores estão a deixar de ser vividos porque “um dia logo se vê” ou “agora não é o momento certo”? Quantos pedidos de desculpa devemos a alguém? Quantos pedidos de desculpa devem a nós? Quando foi a última vez que dissemos aos nossos pais que os adoramos? Quando foi a última vez que falamos com aquele amigo que sempre dizemos marcar um café e nunca acontece?

Sabem, eu entendo porque não entendo na verdade.
Criamos uma linha temporal enorme na nossa cabeça, a correria do dia a dia ilude-nos que ainda temos tanto para viver. E essa falsa ideia faz com que desperdicemos oportunidades, adiamos conversas e decisões porque sempre achamos que teremos tempo, fica para depois. Mas o depois, pode ser demasiado tarde.

Num dia acordamos a achar que vamos ter um dia super tranquilo, e no outro, quando olhamos para o lado, os amigos desapareceram, aquele grande amor pertence agora a outra pessoa. As pessoas que amamos vão embora, de um jeito ou de outro. E aquela vida que aos 20 anos achávamos que não queríamos porque ainda era cedo, bem, talvez não tenhamos oportunidade de a viver porque aos 30 podemos já não estar cá. Ou as pessoas que amamos podem já ter partido. E depois? O que resta?

Restam-nos arrependimentos, um acumular de “e se”, “se eu soubesse”.

Não, nós não sabemos nada. Ficar à espera que a vida faça o seu trabalho é o mesmo que esperar que tudo termine mesmo antes de começar. Porque no dia em que as pessoas forem embora da nossa vida, restam as memórias. E a nossa memória é a nossa pior inimiga, sabem? Porque com o tempo, as lembranças começam a desvanecer, tentamos voltar a lugares que já não existem, criamos histórias na nossa própria cabeça para manter viva a sua presença, mas quando percebemos, já quase nem conseguimos lembrar do seu cheiro, do som da sua gargalhada, do conforto do seu abraço.

Na virada do ano, achei que 2020 seria um excelente ano, os planos eram imensos, as expectativas bastante elevadas. Quem diria que, pouco mais de dois meses depois estaria a desejar que o ano acabasse de uma vez por todas?

Então, agora que todos teremos mais tempo para refletir sobre a vida, talvez esta seja a altura de tomar decisões. Talvez agora seja o momento certo para dizermos às pessoas que amamos aquilo que elas significam para nós, de pedir desculpa a quem devemos, de resolver mágoas passadas. Talvez o universo nos esteja a chamar à atenção para o que temos feito de errado, e nos esteja a dar uma oportunidade para, quando tudo isto passar, abraçarmos as pessoas que amamos com força, para ajudar quem precisa da nossa ajuda, para aprendermos o que significa empatia e colocar em prática.

Amem, respeitem, deixem-se de desculpas e tomem decisões. Assumam os vossos erros, deixem o orgulho de lado. Amem, e aprendam a ser amados.

E acima de tudo, não percam tempo, porque ninguém sabe quanto tempo dura o tempo.

Que o amor envolva os vossos corações.

2 thoughts on “não percam tempo.

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